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COM ATRASOS EM OBRAS, ESTÁDIOS DA COPA DO MUNDO EXPÕEM 'GUERRA' NA RÚSSIA



24/02/2018

Faltando quadro meses para a competição, apenas cinco estádios estão prontos para receber jogos

Enquanto vistoriava a preparação de um dos terrenos de treinamento que será usado para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, um empresário revelou à reportagem do jornal O Estado de S.Paulo: o governo de Vladimir Putin não tem feito os pagamentos combinados pelas obras e, por enquanto, é ele mesmo que tem bancado a construção.

Temendo represálias de um governo conhecido por seu estilo autoritário, o empresário pediu de maneira insistente para manter o seu nome e o de sua empresa no anonimato. "Perco tudo o que eu tenho se meu nome for revelado", alegou.

A esperança do empresário, que gastou cerca de US$ 2,2 milhões (R$ 7,1 milhões, na cotação atual) em um campo de treinamento, é o de que o Ministério dos Esportes russo acabe liberando o dinheiro. Mas já teme eventual conflito nos tribunais.

Faltando quatro meses para a Copa do Mundo, a Rússia conta hoje com apenas cinco estádios prontos: São Petersburgo, Kazan, Sochi e as duas arenas de Moscou. Os outros sete estádios continuam em obras e, no caso de Samara, o atraso é calculado em dois meses.

Com gastos de US$ 13,2 bilhões (R$ 42,6 milhões), o Mundial de 2018 será o mais caro da história. Mas, para críticos do governo russo, não existe espaço na imprensa nem entre os ativistas do país para se investigar o motivo dos gastos inéditos para uma. Mesmo que metade do dinheiro venha dos cofres públicos.

Consultado, o Comitê Organizador da Copa insiste que não vê problemas com os atrasos e que todos os estádios pendentes serão concluídos nas próximas semanas. Os organizadores também garantem que todos receberão jogos para testar a infraestrutura. Quando a reportagem solicitou as datas dos testes, não obteve respostas.

Vladimir Putin indicou que terá uma reunião com o presidente da Fifa, o suíço Gianni Infantino, para organizar a reta final da preparação. Mas, segundo a imprensa oficial russa e que serve de porta-voz para Putin, a vontade do Kremlin de se envolver diretamente na organização não é um sinal de problemas.

MILHÕES

Uma realidade diferente, porém, é a que as cortes russas revelam. No início de fevereiro, o Ministério dos Esportes entrou com seis processo nos tribunais, reclamando uma indenização de US$ 50,8 milhões (R$ 164 milhões) por conta dos atrasos nas obras de estádios.

Apenas da empresa do aliado de Putin Gennady Timchenko, o governo quer recuperar US$ 17 milhões (R$ 54,9 milhões). Timchenko seria o responsável pelo atraso em dois estádios: Nizhny Novgorod e Volgograd. Ex-engenheiro de um dos ministérios no regime soviético e hoje com uma fortuna acumulada em US$ 16 bilhões (R$ 51,6 milhões), o empresário está hoje na lista da Casa Branca de russos que sofrem embargos e sanções por seu papel dentro do governo de Putin depois da anexação da Crimeia. O restante dos valores viria dos problemas nas obras em Samara, Kalinigrado, Ekaterinburgo, Rostov e Saransk.

Uma das queixas é contra a empresa Crocus International, contratada pelo ministério para erguer os estádios de Rostov e de Kalinigrado por um total de 400 milhões de euros (R$ 1,6 bilhão). A Fifa prefere não comentar publicamente os atrasos. Mas quer garantias de que os últimos estádios a serem entregues possam realizar seus testes pré-Copa entre os meses de março e abril.

COM 60% DOS ESTÁDIOS DA COPA AINDA EM OBRAS, RÚSSIA PROCESSA CONSTRUTORAS POR ATRASOS

Sete estádios, incluindo este em Samara, ainda não estão prontos para o torneio
GETTY IMAGES

17/02/2018

O governo da Rússia está processando quatro construtoras que estão erguendo sete dos 12 estádios que serão usados na Copa do Mundo de 2018, exigindo uma indenização de US$ 51 milhões (cerca de R$ 164 milhões) por causa de atrasos na construção.

A Rússia sediará o campeonato em 11 cidades entre 14 de junho e 15 de julho.

Documentos judiciais mostram que o governo russo, por meio do Ministério do Esporte, abriu seis processos contra diferentes empresas, incluindo uma que pertence ao bilionário Gennady Timochenko, aliado do presidente russo, Vladimir Putin.

Elas são acusadas de violar "uma série de obrigações quanto a prazos para a construção". Os estádios em questão ficam em Novgorod, Volgogrado, Saransk, Samara, Ecaterimburgo, Kaliningrado e Rostov do Don.

Há quatro anos, quando faltavam cerca de cem dias para a abertura da Copa no Brasil, quatro dos 12 estádios (33,3%) que receberam jogos ainda não haviam sido entregues. Todos ficaram prontos a tempo.

Garantia

Em entrevista à agência de notícias Tass, Alexei Milovanov, diretor da Sport-Engineering Co – responsável por sete estádios da Copa de 2018 – disse que os processos não afetarão os prazos de entrega das obras.

Timochenko, cuja empresa é responsável por dois estádios atrasados, é aliado 
do presidente Vladimir Putin - GETTY IMAGES

"Os estádios estarão inteiramente prontos para os jogos testes planejados para março e abril", disse Milovanov.

Num duro pronunciamento em outubro, o presidente Putin afirmou que os atrasos são "inaceitáveis". O caso de Samara desperta mais temores, pois estima-se que as obras estejam pelo menos dois meses atrasadas.

O estádio de 45 mil lugares sediará seis jogos, incluindo Uruguai e Rússia na fase de grupos, um jogo nas oitavas de final e um nas quartas.

A PSO, uma das empresas processadas pelo governo russo e responsável pela arena em Samara, se disse "surpresa" com a ação judicial. A empresa afirmou num comunicado que "os projetos dos estádios mudaram muitas vezes, e os prazos também foram reajustados".

Cinco das 12 arenas, incluindo o estádio Luzhniki, já foram entregues
GETTY IMAGES

"Não aceitamos as acusações e nos defenderemos no tribunal", disse a companhia.

Legado

A Stroytransgaz, empresa que pertence ao bilionário Timochenko, também disse que os prazos de construção haviam sido alterados com a anuência do Ministério do Esporte.

As construtoras Crocus e Sinara não responderam aos questionamentos do serviço russo da BBC sobre os processos.

Na Copa das Confederações, em 2017, a Rússia exibiu quatro dos 12 estádios que serão usados no Mundial: o Spartak, em Moscou, o Fisht, em Sochi, o de Kazan e o de São Petersburgo.

Há dúvidas sobre o futuro de estádios em cidade sem tradição no esporte, como Kaliningrado
GETTY IMAGES

Das oito restantes, o estádio Luzhniki, também em Moscou, é outra arena já pronta e será a principal instalação da Copa de 2018, sede da partida de abertura (Rússia e Arábia Saudita, em 14 de junho) e da final. As outras sete arenas estão em construção e ainda precisam ser testadas.

Também resta a questão do futuro dos estádios depois da Copa. Alguns ficam em cidades sem times da primeira divisão do futebol russo, como Kaliningrado.

Os dois torneios anteriores, sediados pelo Brasil e pela África do Sul, enfrentam situações parecidas, com estádios subutilizados após o evento.

Antes dos processos pelos atrasos, o Ministério da Agricultura da Rússia expressou preocupação quanto à ação de gafanhotos nos gramados.

Fonte: BBC.com
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