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O PESO DA CAMISA

Neymar, em treinamento da seleção brasileira. MOHAMED MESSARA EFE

03/08/2018

Nos tempos heroicos do futebol, as camisas não tinham patrocínios e as luvas de goleiro eram costuradas à mão. Hoje os jogadores mais parecem outdoors ambulantes

Ainda assim, as cores de uma equipe costumam ter valor transcendental. Após a derrota contra o Uruguai em 1950, o Brasil não quis regressar ao campo com sua habitual camisa branca. Qualquer alusão ao Maracanazo traria má sorte. A então Confederação Brasileira de Desportos e o jornal Correio de Manhã organizaram um concurso em busca de um novo uniforme, que foi vencido por Aldyr Garcia Schlee. Assim surgiu a canarinha. O curioso é que Aldyr era devoto da seleção uruguaia. Como em verdadeiro ritos, a mudança de pele precisava do favor de um inimigo.

A Copa do Mundo gera a ilusão de que os protagonistas a disputam em nome de um país e não de uma companhia aérea de Cingapura. Certas camisas ostentam uma condecoração sobre o escudo no lado esquerdo do peito: uma estrela por cada Copa do Mundo. Fala-se do “peso da camisa” em alusão à investidura, quase sagrada, de quem parece triunfar só de pisar na grama. A Alemanha das quatro estrelas pertence a essa legião, mas não esteve à altura de seu uniforme. Assim como a Argentina, que suou para passar de fase e caiu diante da França, ou a Espanha, eliminada pelos donos da casa.

Às vezes, o peso da camisa é literal. Para sua partida crucial contra a Inglaterra, na Copa do México, em 1986, os argentinos deveriam usar seu segundo uniforme: camisas azul marinho, de tecido grosso. Ao contrário das albicelestes, confeccionadas com minúsculos buracos que permitiam a circulação do ar, as camisas reservas absorviam o suor e a chuva, se convertendo em uma couraça insuportável. Carlos Bilardo, treinador argentino, pesava a roupa com o cuidado com que pesava bebês em seus tempos de obstetra. Decidiu que a equipe de Maradona e companhia não poderia jogar com o uniforme B. Um dia antes do jogo, comprou uniformes novos. Por sorte, encontrava-se no México, bastião da economia informal. Em 12 horas, descolou a roupa pirata. Os números foram arrancados de camisas de futebol americano. O emblema da Coq Sportif não parecia um galo, mas sim um frango. Vestidos com essa picardia de bairro, só podiam ganhar.

A habilidade mexicana para improvisar uniformes não diminuiu. Em todas as partes houve postos de venda de camisas que variam de preço de acordo com os altos e baixos da seleção.

Juan Carlos Osorio, treinador da Tri, exerce um popular gênero literário: os lemas de camisa. Nos treinamentos, seus jogadores levam no peito o que devem sentir na alma: “amar o triunfo” em vez de “temer a derrota”. Quando jogaram contra a Suécia, esse leva provavelmente ficou na lavanderia. Precisa reestampá-lo na atitude de seus comandados para ter alguma chance contra o Brasil nas oitavas de final.

Um episódio desta Copa na Rússia fala da camisa como uma carteira de identidade. Quando Shin Tae-yong, técnico da Coreia do Sul, soube que seu treinamento era vigiado por espiões suecos, pediu aos seus homens que trocassem de camisetas. Para o limitado olhar ocidental, os números são mais eloquentes que as caras asiáticas.

Fonte: El País


COPA DO MUNDO 1950 - BRASIL

Ghiggia comemora gol da vitória do Uruguai sobre Brasil na final de 1950 
e cala o Maracanã (Foto: Agência AP )

22/12/2015

Após paralisação da Copa por 12 anos devido à Segunda Guerra, Uruguai conquista bicampeonato diante dos favoritos donos da casa, e 'Maracanazo' até hoje é lembrado

ESCOLHA DA SEDE

Desde 1938 o Brasil pleiteava ser sede de Mundial. A Alemanha também. Veio a Segunda Guerra. Duas Copas não foram realizadas - 1942 e 1946. No Congresso pós-Guerra da Fifa, em 1946, os alemães, semidestruídos, retiraram sua candidatura. Apenas o Brasil a manteve. E um país sul-americano voltava a ser o centro das atenções no futebol. Antes marcado para 1949, o torneio acabou adiado por um ano.

OS ESTÁDIOS

No Congresso da Fifa em Luxemburgo, A CBD encantou a Fifa quando apresentou a intenção de construir o maior estádio do mundo, com capacidade para 155 mil pessoas. A inauguração oficial do Maracanã, no Rio de Janeiro, aconteceu oito dias antes do começo da Copa, em 16 de junho de 1950. E o estádio acabou sendo palco da grande final, que teve contornos de tragédia para os brasileiros. Os outros foram todos remodelados.

Tabela - estádios da Copa de 1950 (Imagem: Globoesporte.com)


AS ELIMINATÓRIAS

A Segunda Guerra deixou marcas profundas em alguns países, o que tornou impossível a participação no Mundial no Brasil. Hungria, Tchecoslováquia e Polônia não tiveram condições. A Alemanha foi proibida pela Fifa de jogar. Com tudo isso, houve 32 inscritos nas eliminatórias, dos 72 países filiados. Brasil, como sede, e Itália, como último campeão, estavam classificados automaticamente. Argentina, Áustria, Bélgica, Birmânia, Colômbia, Equador, Filipinas e Peru desistiram durante as eliminatórias.  Dos 16 que restaram, Escócia, Índia e Turquia abriram mão das vagas. França, Irlanda e Portugal, convidados para serem os substitutos, declinaram. E o Mundial ficou com apenas 13 seleções, entre elas a Inglaterra, finalmente estreando em Mundiais.

O MASCOTE

Somente a partir de 1966 as Copas passaram a ter mascotes.

O CAMPEÃO

Com base no Nacional e Peñarol, as duas principais equipes do país, a Celeste Olímpica chegou ao Brasil bem desacreditada. Ninguém poderia imaginar que, pouco depois faria o Brasil inteiro chorar de tristeza na final. O caminho para provocar o Maracanazo começou fácil. Na primeira fase, pegou o grupo 4, o mais fácil, apenas com a Bolívia. E aplicou goleada por 8 a 0, no Independência. Depois, na outra fase, os quatro classificados se enfrentaram. O Uruguai empatou com a Espanha por 2 a 2 e ganhou de virada da Suécia por 3 a 2. Precisava vencer o Brasil para levar o bicampeonato. E conseguiu, por 2 a 1.

O ARTILHEIRO

Ademir Marques de Menezes era veloz dominando a bola. Habilidoso. Sempre difícil de ser marcado. E chutava maravilhosamente bem.. O Queixada foi o artilheiro da Copa, com 9 gols. Só não balançou as redes no empate por 2 a 2 com a Suíça, ainda na primeira fase, e na fatídica derrota para o Uruguai na decisão.

O CRAQUE

O Mundial de 1950 teve vários destaques. Se o Brasil tivesse conquistado a taça, fatalmente a disputa da coroa seria entre Zizinho, Ademir e Jair Rosa Pinto. Mas deu Celeste. E lá, outros três apareceram de forma marcante. O capitão Obdulio Varela foi um gigante, principalmente na final. O meio-campo Schiaffino era o cérebro do time. Mas o destino quis que o atacante Gigghia surgisse como o grande herói. Balançou as redes em todas as partidas do Uruguai e fez um dos gols decisivos mais conhecidos na história dos Mundiais. Até hoje, dá entrevistas falando sobre isso.

SELEÇÃO BRASILEIRA

Astro do Brasil com Ademir e Jair, Zizinho (F) 
é comparado a Da Vinci em 50 (Foto: Agência AFP )
Nunca uma seleção brasileira entrou tão favorita para ganhar um Mundial como a de 1950. O técnico Flávio Costa tinha em suas mãos grandes jogadores. Quando goleava por 6 a 1 a Espanha no Maracanã, dando show de bola, e a torcida cantava esfuziante "Touradas em Madri", não havia um brasileiro que não considerasse aquele time imbatível. Mas os problemas na preparação - o oba-oba ficou fora de controle até durante a concentração - atrapalharam a equipe, que na primeira fase goleou o México por 4 a 0, depois empatou por 2 a 2 com a Suíça e venceu a Iugolávia por 2 a 0. Depois, foram duas goleadas históricas, antes da tragédia para o Uruguai: 7 a 1 sobre a Suécia e 6 a 1 sobre os espanhóis.

A DECEPÇÃO

A Inglaterra abandonou o ar blasé sobre o Mundial justamente na Copa realizada no Brasil. Finalmente, o país aceitou disputar a competição, apesar de não reconhecer na seleção campeã a melhor do planeta. Mas o resultado em campo não confirmou o nariz empinado de quem imaginava ter o melhor futebol do mundo. O English Team só derrotou o Chile, na estreia (2 a 0). Depois, perdeu por 1 a 0 para os Estados Unidos, na grande zebra do torneio, e para a Espanha (1 a 0), despedindo-se da competição.

PARA A HISTÓRIA

A certeza da vitória do Brasil era tão grande que o jornal vespertino "A Noite", do Rio, foi às bancas na véspera com a seguinte manchete, acima da foto do time do Brasil posado: "Estes são os campeões do mundo."

A DECISÃO

No último jogo, contra o Brasil, o Uruguai só tinha uma opção: vencer. A seleção brasileira jogava com a vantagem do empate e um país inteiro à espera da conquista do tão sonhado título. Não havia um que não acreditasse. Mais de 200 mil pessoas se espremeram no Maracanã para comemorar mais do que propriamente torcer. O time ainda abriu o placar, com Friaça, a um minuto do segundo tempo, só aumentando a euforia. Mas, sob o comando de Obdulio Varella, a Celeste se agigantou. Tudo começou a mudar com o empate de Schiaffino, aos 21. E depois o gol da vitória de Ghiggia, aos 34, deu início ao Maracanazo, num dos maiores silêncios ensurdecedores da história do futebol. E o Brasil chora até hoje essa derrota.

Nos 65 anos do Maracanazo, Ghiggia morre após sofrer parada cardíaca

Ghiggia marcou o gol que calou o Maracanã na Copa de 1950 (Foto: Agência AP )

17/07/2015

Autor do gol que calou o Maracanã naquele 16 de julho de 1950, o ex-jogador uruguaio era o único remanescente daquele time bicampeão do mundo com a Celeste

Carrasco do Brasil na Copa de 50, o uruguaio Alcides Edgardo Ghiggia morreu nesta quinta-feira, justamente o dia em que o Maracanazo completou 65 anos. Aos 88 anos, ele não resistiu a uma parada cardíaca, poucas horas após ter sido internado com dores no peito em Montevidéu. Autor do gol que calou o Maracanã naquele 16 de julho de 1950, Ghiggia era o único remanescente do time bicampeão do mundo com a Celeste.

Nascido dia 22 de dezembro de 1926 em Montevidéu, defendeu ao longo da carreira Peñarol, Roma, Milan e Danubio, entre outras equipes menores, mas ficou marcado mesmo pela participação na Copa do Mundo de 1950. Ele foi o autor do gol que deu a virada e o título mundial na decisão daquele Mundial, vencida pela Celeste por 2 a 1 no Maracanã.

Acidente e homenagem ainda em vida

Ghiggia foi homenageado em 2013, no gramado do 
Nacional, em jogo das eliminatórias (Foto: AFP )
Há três anos, Ghiggia ficou próximo da morte, mas conseguiu se recuperar a tempo de receber outras homenagens ainda em vida. Em junho de 2012, sofreu um grave acidente de carro, fraturou uma das pernas e teve traumatismo craniano. Ele ficou 20 dias em coma induzido num hospital em Montevidéu, passou por diversas intervenções cirúrgicas, mas se recuperou meses depois.

A sobrevida deu uma grande oportunidade para o carrasco da seleção brasileira ser homenageado mais uma vez em vida. O ex-ponta-direita foi a campo antes do empate sem gols entre Uruguai e Jordânia, que garantiu a seleção sul-americana na Copa de 2014, e foi o protagonista de uma bela festa no estádio Centenário. Na ocasião, o feito foi reprisado em um grande telão e acabou sendo comemorado pelos torcedores como se tivesse acontecido naquele momento.

Há um ano, Ghiggia comentava de casa sobre os acontecimentos na Copa do Mundo. Ele criticou a mordida de Luis Suárez em Chiellini (“Não sei o que este rapaz tem na cabeça”), que rendeu nove jogos de suspensão ao atacante, e também afirmou que o Maracanazo foi maior do que o vexame brasileiro diante da Alemanha (“Diferente porque era uma final”). O ídolo uruguaio está presente na calçada da fama do Maracanã desde dezembro de 2009.

O ídolo uruguaio passou seus últimos anos de vida na região de Las Piedras, a 30 quilômetros de Montevidéu. Lá, administrava um supermercado, que, segundo a imprensa local, era a sua fonte de sustento.

Velório e luto

Os torcedores poderão se despedir do ídolo nesta sexta-feira, e o velório de Ghiggia acontecerá no parlamento uruguaio entre as 8h e 11h30, com as honras de um herói nacional, antes do enterro, informou o jornal uruguaio "EL Pais". Nesta sexta-feira, o governo do país vizinho declarou luto pela morte do herói do bicampeonato mundial.


Copa 2014: Pelé quer 'revanche' do Brasil após Maracanazo de 1950

21/11/2013

Um dia depois de o Uruguai se garantir como a última das 32 seleções classificadas para a Copa do Mundo de 2014, Pelé afirmou nesta quinta-feira, durante evento promocional em São Paulo, que gostaria de ver um novo duelo entre Brasil e a seleção celeste no Mundial.

Embora tenha ajudado a vingar o Brasil da fatídica derrota sofrida na decisão da Copa de 1950, no Maracanã, pois derrotou os uruguaios na semifinal do Mundial de 1970, o Rei do Futebol destacou que seria interessante reencontrar o histórico rival, em solo nacional, na próxima edição do maior evento de futebol do planeta.

Pelé garantiu não temer um novo Maracanazo, como ficou conhecida a derrota de 2 a 1 para o Uruguai ocorrida há 63 anos, e enfatizou: "Primeiro precisamos ver se o Uruguai vai conseguir chegar na final. Se chegar, vai ser uma boa oportunidade de fazermos a revanche".

Já ao ser questionado sobre quem é o grande favorito a conquistar a Copa de 2014, Pelé desta vez resolveu não apontar uma seleção, diferentemente do que aconteceu, por exemplo, antes do Mundial de 1994, quando errou feio ao dizer que apostava em título da Colômbia, eliminada já na fase de grupos nos Estados Unidos. Porém, o maior jogador da história disse que vê o Brasil muito forte na briga pela taça.

"Não dou palpite, mas torço para que o Brasil seja campeão e acredito que temos totais condições de sermos campeões. Com o Felipão, o time ficou melhor", destacou, para em seguida, entretanto, ponderar que o time nacional está carente de melhores valores ofensivos, principalmente para criação de jogadas. "Hoje, pela primeira vez na história, estamos bem na defesa e tendo problemas no ataque. Os últimos melhores camisas 10 do Campeonato Brasileiro são estrangeiros, que são o Conca e o Montillo", opinou.

Pelé, por sinal, fez um comparativo com a seleção campeã da Copa de 1970 para ilustrar a sua tese de que hoje faltam autênticos camisas 10 na seleção brasileira. "Na minha época muitos jornalistas diziam que a seleção não ia dar certo porque tinha muitos camisas 10 no time: eram eu, o Rivellino, o Gerson e o Tostão. Hoje falta esse tipo de jogador."

Já ao falar sobre quem acredita que deverá ser o craque da próxima Copa, Pelé evitou apontar Messi como grande favorito a este posto, assim como lembrou de um clássico camisa 10, já aposentado, tido por ele como mais jogador que o argentino. "Para mim, o Zidane foi melhor do que Messi porque os seus companheiros não tinham tanto nome quanto os do Messi, que no Barcelona joga com Xavi e Iniesta. O Messi no Barcelona é um, e na seleção argentina é outro. Vamos ver o que vai fazer na Copa", desafiou.


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