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O sonho acabou: seleção brasileira foi derrotada pelo Uruguai em 1950

Ghiggia silencia o Estádio Municipal a 11 minutos do final. Barbosa esperava um 
cruzamento e foi surpreendido com o chute. Brasil dava adeus ao primeiro título. / Crédito:

06/10/2013

Um empate bastava ao Brasil. Saímos na frente, mas os uruguaios fizeram dois gols em falhas do quadro nacional , calaram os 200 000 brasileiros que encheram o Estádio Municipal . Agora Uruguai e Itália são os maiores vencedores de Taças do Mundo

Parecia impossível, mas aconteceu. O team nacional foi derrotado por 2 x 1 no Estádio Municipal do Maracanã e o Uruguai venceu a Copa do Mundo pela segunda vez. Vinte anos depois, a Jules Rimet está de volta às mãos de seus primeiros campeões. Agora Uruguai e Itália estão empatados em número de conquistas. Duas falhas lastimáveis, na trágica tarde dos jogadores patrícios, selaram a sorte da peleja e calaram os 200000 torcedores que lotaram a cancha – e todos os 50 milhões de brasileiros que se preparavam para uma grande festa. Os lenços brancos, que tremularam freneticamente no gol de Friaça, foram usados para enxugar lágrimas de tristeza. As serpentinas e os confetes acabaram abandonados pelas arquibancadas.

Momentos dramáticos na capital federal. Schiaffino (foto) empata para os celestes aos 
21 minutos da etapa final. O empate ainda daria a taça para o team brasileiro / Crédito: Popperfoto

O Estádio Municipal ficou em total silêncio depois do gol de desempate de Ghiggia, aos 34 minutos da segunda etapa (Schiaffino havia empatado aos 21). “Quando a bola entrou, parecia que o mundo parara”, declarou o herói uruguaio. “O silêncio era ensurdecedor e nós entramos todos em delírio.” O quadro brasileiro, que aplicara goleadas memoráveis contra Suécia e Espanha no quadrangular final, dias antes, não teve forças para buscar o empate, resultado que lhe daria o inédito título. “Foi uma desgraça para nós”, lamentava Bigode, um dos mais criticados pela derrota. “Se não fiz pênalti em Ghiggia na jogada do segundo gol é porque estava muito longe de imaginar que, do ângulo que ele chutou, a bola pudesse atingir o fundo das redes.” O goleiro Barbosa também foi crucificado por causa do segundo gol. “O time se perturbou com a obrigação de ganhar”, declarou.

Maspoli, do Uruguai, consola o brasileiro Augusto; o treinador Flávio Costa lamenta;
uruguaios ficam eufóricos com a conquista / Crédito: Bob Thomas/Popperfoto

CAMISA AGOURENTA

Teria sido apenas obra do azar? Pela primeira vez, jogando no Estádio Municipal, o ataque brasileiro começou a contenda atacando contra a Avenida Maracanã. Houve até quem jogasse a culpa na agora agourenta camisa branca. Não seria hora de trocá-la? Ainda no estádio, o treinador Flávio Costa preferiu lamentar o clima que se criou antes da partida. “Não foi possível conter a onda de otimismo que invadiu São Januário”, reclamou o treinador do scratch nacional. Costa se referia à mudança da concentração do pacato Joá para a agitação do estádio do Vasco.

A visita de políticos atrapalhou até mesmo o almoço da equipe horas antes da partida. O próprio Costa recebera o convite para se candidatar a deputado, assim como o artilheiro Ademir. O clima de “já ganhou” tomou conta do ambiente. Jogadores faziam até planos de como iriam gastar o prêmio. No sábado, um dia antes da final, o jornal O Mundo pôs à venda uma edição especial com a foto do time brasileiro e o título “Estes são os Campeões do Mundo”. “O quadro brasileiro esqueceu-se que estava disputando uma final de Copa do Mundo para fazer exibição de futebol bonito”, disparou Ernesto Figoli, o “Matucho”, massagista da seleção oriental desde a conquista olímpica de 1924. Exemplares do periódico teriam sido encontrados nas paredes do vestiário do Uruguai.

VEXAME INGLÊS

Eis uma lição que os cracks celestes deixam para o mundo do football. Uma partida não se ganha na véspera. Quem também cantou vantagem antes da hora foi o English Team, que terminou a competição de forma melancólica. Foi a primeira vez que os inventores do futebol moderno aceitaram disputar uma Taça do Mundo. Também pela primeira vez jogaram no continente americano. Na partida de estreia, a curiosidade era tão grande que a delegação brasileira foi ver os ingleses vencerem o Chile por 2 x 0.  A bajulada seleção inglesa não passou da primeira fase, acumulando duas derrotas. Uma delas foi para a seleção semiamadora que veio dos Estados Unidos. O autor do gol da vitória por 1 x 0 foi um haitiano chamado Joe Gaetjens, que trabalha como lavador de pratos e vive nos Estados Unidos com um visto de estudante. Em um jornal da capital inglesa, o redator recebeu o teletipo com a frase England 0 x 1 USA. Acreditando se tratar de um erro, ele corrigiu para England 10 x 1 USA.

Apesar da derrota amarga, a Copa deixa de positivo o crescente interesse do brasileiro pelo football. A começar por nossas crianças. Do nosso correspondente em Bauru, no interior de São Paulo, recebemos a notícia de um menino de 9 anos que, ao ver o pai desolado ao lado do rádio depois da partida, prometeu que um dia ganharia uma Copa do Mundo para ele. Desejamos que a promessa que o menino Edson fez ao pai, o jogador de futebol João Ramos do Nascimento, seja mesmo um dia cumprida. É aguardar o Campeonato Mundial de Football na Suíça daqui a quatro anos.

O Brasil goleou a Suécia por 7 x 1. Neste lance, o arqueiro Kalle Svensson 
tira a bola dos pés de Ademir / Crédito: Popperfoto

A TAÇA PARA OBDULIO

Jules Rimet foi um dos principais articuladores para a realização da 
Copa do Mundo no Brasil. Ele havia conhecido o Rio de Janeiro  
numa viagem em 1939 e ficou encantado com as belezas naturais  
da cidade / Crédito: Bob Thomas/Popperfoto

Na saída do Estádio Municipal, o presidente da Fifa, Jules Rimet, conversou com nossa reportagem. Ele estava ainda surpreso com o resultado e com tudo o que se passara na partida final. Ele declarou que, na tribuna, se preparava mentalmente para entregar a taça ao capitão brasileiro, Augusto. “Deixei meu lugar na tribuna de honra e, já preparando o discurso que deveria pronunciar diante dos microfones, me dirigi aos vestiários, ensurdecido com a gritaria da multidão”, afirmou.

Aconselhado a descer devagar a escada até o vestiário, Jules Rimet foi acompanhado por delegados da Fifa, dirigentes brasileiros e guardas armados. Cerca de 1700 policiais militares (ou 70% do efetivo da corporação) foram destacados para a segurança interna e externa do Maracanã. O Exército também forneceu 300 soldados. “Eu seguia pelo túnel, em direção ao campo”, continuou o dirigente. “À saída do túnel, um silêncio desolador havia tomado o lugar de todo aquele júbilo. Não havia guarda de honra, nem hino nacional, nem entrega solene. Achei-me sozinho, no meio da multidão, empurrado para todos os lados, com a taça debaixo do braço.”

O jogo terminou às 16h50. Jules Rimet não conseguiu entregar a taça. Havia muitos fotógrafos e repórteres em campo. Decidiu se retirar, mas mudou de ideia logo depois. Obdulio Varela chegou perto dele e a recebeu. O capitão celeste ouviu do presidente Rimet, em francês: “Estou feliz pela vitória que vocês acabam de conquistar. Cheia de mérito, sobretudo por ter sido inesperada. Com minhas felicitações”.

Jules Rimet entrega a Taça do Mundo aos jogadores da Celeste uruguaia, 
os surpreendentes campeões do mundo / Crédito: Popperfoto
Fonte: Placar

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