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Mercado Público é um dos locais recomendados para uma tarde de folga da seleção francesa
Foto: Diego Vara
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05/06/2013
Conterrâneos que moram na Capital dão dicas à delegação que chega na quarta-feira para enfrentar o Brasil domingo, na Arena
Paulo Germano
paulo.germano@zerohora.com.br
Três dias e quatro noites em Porto Alegre. É o que os jogadores, o técnico e os dirigentes da França terão pela frente, entre treinos e folgas, antes do amistoso contra o Brasil na Arena do Grêmio, às 16h de domingo. Tempo semelhante tiveram os ingleses no Rio de Janeiro, e lá eles giraram pela cidade com euforia turística.
Talvez não haja maior lugar-comum, maior pobreza de espírito do que oferecer a Deschamps e seus atletas um rodízio de churrasco – e talvez você já torça o nariz para a abordagem bairrista do texto que recém começa a ler –, mas acredite, você se divertiria com o sorrisinho nervoso de fascínio e desespero estampado na boca de um francês assistindo àquela catadupa de carne de boi, de ovelha, de porco, de frango aterrissar sobre a mesa atulhada de travessas de polenta, batata, arroz, maionese, saladas de todo tipo.
É disso que os gauleses gostam – não de churrasco, mas do que nunca viram. Quem garante são os cinco convidados de ZH para sugerir programas e locais da capital gaúcha à delegação que amanhã, por volta das 22h, desembarca no Salgado Filho, na primeira visita de uma seleção europeia desde a vinda da extinta Iugoslávia no Natal de 1994. Os cinco, nascidos na França, vivem há anos em Porto Alegre e ainda se lembram da insanidade que lhes pareceu o primeiro rodízio. Pudera: desde o autoritário reinado de Luís XIV, no século 16, os hábitos franceses à mesa são um modelo de requinte. Acostumaram-se a uma refeição pausada, harmoniosa, um pratinho de entrada, um suflê de cenoura, depois um mousse para a sobremesa, e de repente vem uma gauchada lhe enfiando terneiros goela abaixo.
– Minha mãe ficou com medo, dizia que carne demais faz mal à saúde. Mas, depois que viu o churrasco, foi a última a parar de comer – recorda a professora de francês Charlotte Wave, 41 anos, há quatro vivendo em Porto Alegre.
Umbanda atrai
O fato é que, até pela tradição colonizadora, os franceses são abertos a conhecer, a descobrir. São diferentes dos americanos, por exemplo, que provavelmente buscariam uma multinacional para jantar e abririam uma Budweiser. O pessoal da França, não: eles ficam entusiasmados com as lojas de umbanda no Mercado Público, diz Veronique Buisson Masi, 46, há 23 na Capital, dona de uma operadora de turismo:
– Acham incríveis as mães de santo, acham o máximo aquelas velas e grãos que podem espantar espíritos. É uma coisa muito distante para eles, parece magia negra.
É que, na França, essa coisa de religião é meio delicada. Presidente da República agradecendo a Deus ao encerrar discurso, por exemplo, é inimaginável. Ninguém expõe muito suas crenças por lá, as escolas públicas são laicas, não ensinam doutrina alguma. Trata-se de um assunto privado, cada um com seu cada um. Isso, claro, hoje. Porque raras nações sofreram tanto com a fúria da fé: para se ter uma ideia, até o casamento de uma princesa, a católica Marguerite de Valois, com um nobre protestante – o matrimônio parecia, enfim, uma trégua nas célebres Guerras Religiosas –, tratava-se, na verdade, de uma tocaia para atrair milhares de protestantes e chaciná-los feito vira-latas nas ruas de Paris. Foi o que houve.
Portanto, esse negócio de religião influenciando na música, na dança, nas festas populares, tudo isso os franceses acham sensacional no Brasil, mas desde que fique no Brasil, nunca na França – onde, aliás, Joana d’Arc foi queimada viva sob a acusação de bruxaria. E é exatamente a busca pela profundidade histórica, que na França existe de sobra, o objetivo de um francês desbravando um território estranho.
– Em Porto Alegre, não há quem não se sinta atraído pela Usina do Gasômetro, um local que produzia energia e virou patrimônio cultural da cidade – diz o diretor da Aliança Francesa e representante da Cooperação da Embaixada Francesa no Rio Grande do Sul, Jacques Pétriment, 56 anos.
Shopping afugenta
É nessa linha que o chef Philippe Remondeau sugere à França uma visita à Praça da Matriz, onde os pilares do poder e da cultura se avolumam com o Palácio Piratini, a Catedral e o Theatro São Pedro. Já o engenheiro Mikael Berberian, 33, recomenda uma noite com samba, bolinho de feijoada e caipirinha no boteco Matita Perê, na Cidade Baixa. Tudo certo até aqui.
Os únicos locais que os cinco convidados de ZH refutam de toda forma, garantem que Deschamps e sua trupe vão detestar, não aconselham nem uma passadinha de cinco minutos, são os shopping centers.
– Não têm alma – resume Pétriment.
– Por que o brasileiro passa tempo no shopping? – questiona Mikael.
– É um lugar para comprar alguma coisa, não para se divertir – protesta Veronique.
Talvez, se houvesse aqui a segurança das ruas de Paris, a forma de consumir fosse diferente. Paciência. C’est la vie.
Mikael Berbarian, engenheiro, 33 anos, há dois em Porto Alegre
O francês é muito sensível à natureza e, na Ilha das Flores, há uma flora totalmente nova para nós. Um passeio de barco partindo da ilha é fantástico: você pode assistir ao pôr do sol de dentro d'água, no Guaíba, com uma linda visão da capital gaúcha.
Jacques Pétriment, diretor da Aliança Francesa, 56 anos, há três em Porto Alegre
Um lugar que produzia eletricidade e hoje é um patrimônio cultural precisa ser mostrado aos franceses, sempre interessados em conhecer as raízes de uma cidade. Além de oferecer filmes e exposições, o Gasômetro valoriza a beleza natural de Porto Alegre.
Philippe Remondeau, chef do restaurante Chez Philippe, 44 anos, há 16 em Porto Alegre
O francês fica alucinado quando vê um rodízio de churrasco pela primeira vez. Não existe tamanha fartura na Europa, onde a carne é mais cara e raramente se come tão à vontade. E a forma de servir, com espetos, é muito impressionante também.
Veronique Buisson Masi, dona de uma operadora de turismo, 46 anos, há 23 em Porto Alegre
O Mercado Público é muito rico, vários costumes da cidade estão ali. Mas nada chama mais a atenção do que aquelas lojas de umbanda. Os franceses têm a espiritualidade muito pouco desenvolvida, acham o máximo essa coisa de espantar espíritos.
Charlotte Wave, professora de francês, 41 anos, há quatro em Porto Alegre
Ninguém fica alheio àquela arquitetura da Fundação Iberê Camargo integrada ao Guaíba. Aquilo é lindo demais. A busca por opções culturais é muito presente nos franceses, que se mostram sempre dispostos a aprender e conhecer novidades.
Hábito nacional
Hospedada no Sheraton, cuja porta da frente desemboca em um dos mais ativos centros gastronômicos da cidade, a seleção da França estará a poucos passos do que Porto Alegre oferece de mais próximo à sua terra natal.
– A Padre Chagas é uma rua que lembra um pouco a França, especialmente em relação à segurança e aos cafés com mesas na calçada – compara o chef francês Philippe Remondeau (à direita na foto), com a concordância de Charlotte Wave (E), Mikael Berberian e Jacques Pétriment.
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| Foto: Diego Vara |
Fonte: ZHESPORTES








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