De Pelé a Neymar - A história da Seleção Brasileira em Manaus

O Brasil A, que enfrentou a Seleção Amazonense A, na pré-inauguração do 
estádio Vivaldo Lima, em abril de 1970 (Foto: Corrêa Lima)

07/09/2016

Em sua sexta passagem na capital amazonense, o CRAQUE conversou com quem viu de perto todos os esquadrões que vestiram a Amarelinha na "Metrópole da Amazônia"; os relatos e curiosidades de quem testemunhou a história do time de futebol mais vencedor do planeta

Quando a bola rolou na Arena da Amazônia, na noite desta terça-feira (6), para Brasil e Colômbia, passaram, praticamente, 13 anos da última vez a Seleção Brasileira principal esteve em Manaus. Pode parecer muito tempo, mas a relação entre o time Canarinho e a capital amazonense é íntima e marcada por momentos especiais para ambos. Desde a primeira apresentação, na inauguração do jazido estádio Vivaldo Lima, em 1970, até a última passagem, pelas Eliminatórias para o Mundial da Alemanha, em 2003, já se vão 47 anos de poucos, mas intensos encontros.

Nos seus 102 anos de história, será apenas a sexta vez que a Seleção Brasileira principal se apresenta na “Paris dos Trópicos”, e somente em uma oportunidade o time verde-amarelo atuou oficialmente por aqui. Numa noite quente de 10 de setembro de 2003, ainda no antigo Vivaldão, com um Brasil que acabara de conquistar o pentacampeonato com Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo Fenômeno, os amazonenses viram de perto a “amarelinha” em campo bater o Equador por 1 a 0 (gol do Gaúcho), em partida válida pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo da Alemanha de 2006.

De lá pra cá, somente a equipe Olímpica do Brasil visitou a cidade manauara em dois amistosos preparatórios para a Rio 2016 – em outubro do ano passado contra República Dominicana e Haiti. O CRAQUE mergulhou no passado e resgatou os relatos de quem viveu de perto todas as apresentações da equipe de futebol mais vencedora do planeta pelos gramados do Amazonas. As impressões de quem viu de perto Pelé e cia. num inacabado Vivaldão, passando pelo gol de pescoço de Ronaldinho Gaúcho até a tão esperada estreia de Neymar na Arena da Amazônia.

Manaus antes do Tri

O vínculo entre Manaus e a Seleção Brasileira teve início em um ano mágico para o futebol brasileiro. Depois do fracasso na Copa da Inglaterra em 1966, o time Canarinho se preparava para o Mundial do México de 1970 com uma das mais fantásticas gerações de sua história. No entanto, a delegação verde-amarela desembarcou na capital em meio a uma crise. O técnico Zagallo assumira o cargo pouco mais de duas semanas após a demissão de João Saldanha.

No restante do País, a desconfiança na Seleção era enorme e a vinda para Manaus foi como um bálsamo para o time que tinha em Pelé - próximo de se despedir da amarelinha - sua maior estrela. A cidade, que na época tinha cerca de 250 mil habitantes, parou para receber o então bicampeão do Mundo de futebol. No dia 5 de abril de 1970, as “Feras do Saldanha”, agora sob a batuta de Zagallo, tinham a missão de enfrentar a seleção do Amazonas na pré-inauguração do estádio Vivaldo Lima.

De carona com Pelé

Hoje procurador de Justiça, o então jornalista Nicolau Libório acompanhou de perto toda a trajetória do Brasil em sua estreia no Amazonas. Repórter audacioso e de ótimo faro jornalístico, Libório conta como Manaus recepcionou a Seleção, que meses depois encantaria o mundo na Copa do México. “A Seleção foi recebida com muita festa. Eles desembarcaram no aeroporto Ponta Pelada, que hoje é militar. Tinha uma multidão lá pra recebê-los porque aquilo era uma novidade. As emissoras de rádio e jornais badalavam o jogo da Seleção de manhã, de tarde e a noite. A televisão ainda estava chegando a Manaus, não tínhamos essa cobertura que é hoje, só tínhamos O Jornal, o Jornal A CRÍTICA, o da Tarde (Diário da Tarde) e o Jornal do Comércio e as rádios eram a Baré, a Rio-Mar e a Difusora”, recorda o ex-repórter de campo, relembrando o dia em que enganou o “Velho Lobo” para entrevistar Pelé.



“A Seleção fez duas partidas em 1970 e o Zagallo chamou quatro jogadores aqui do Amazonas para compor a equipe B do Brasil. Então eu, ousado como era na época, me passei por jogador e, claro, entrevistei o Pelé. Participei daquele ambiente todo de Seleção. Viajei no ônibus com os jogadores da Seleção B, que fez a preliminar no Vivaldo Lima. Na minha frente estava sentado o Tostão. Também vieram o Dadá Maravilha e os goleiros Ado e Leão. O problema foi no momento de descer do ônibus. Quando o Zagallo me viu pegar outro caminho foi que percebeu que eu não era jogador. Foi quando ele começou a me xingar de tudo que é nome, mas eu já tinha feito o meu comercial”, conta aos risos um dos mais brilhantes cronistas esportivos do Amazonas.

Com novo Vivaldão, Manaus reencontra Zagallo e a Seleção

Após 25 anos de espera, Manaus voltava a reencontrar a Seleção Brasileira principal. Como um presente de Natal antecipado, os manauaras receberam o estádio Vivaldo Lima “novinho em folha” e nada mais apropriado que o time, agora tetracampeão do Mundo, fazer a reinauguração do Colosso do Norte. Com Cafu e Rivaldo no time do técnico Zagallo, quem brilhou mesmo na noite chuvosa do dia 20 de dezembro de 1995 foi Túlio Maravilha, que marcou duas vezes na vitória por 3 a 1 contra a Colômbia (Carlinhos, para o Brasil, e Pareja, para os colombianos, completaram o placar).



Quem esteve não apenas perto, mas literalmente dentro do ambiente daquela partida entre Brasil e Colômbia (mesmo adversário desta terça-feira, 6) foi o jornalista Arnaldo Santos. Um dos maiores nomes da crônica esportiva do Amazonas, Arnaldo recebeu a incumbência de modernizar o estádio manauara, que recebeu, entre outras novidades, placar eletrônico, assentos e cobertura metálica e, finalmente, estava totalmente pronto.

“Tive oito meses para transformar o Vivaldo Lima para receber a Seleção Brasileira. Viajamos para o Rio para visitar o Maracanã, fomos até São Paulo para visitar o Morumbi e depois até Minas para ver o Mineirão. Tudo isso para trazer o que de mais moderno existia na época para fazer do Vivaldão um dos estádios mais modernos do mundo”, comenta Arnaldo, recordando a festa da população manauara no dia do jogo.



“Na cidade só se falava da reabertura do Vivaldão. Lembro que os portões do estádio foram abertos por volta das 5 e meia da tarde e às 7 e meia da noite o estádio já estava completamente lotado. E o jogo só iria começar às 9 da noite. Isso pra você ver o quanto o povo amazonense gosta de futebol”, relembrou a lenda vida da crônica esportiva Baré.

Em 1996

Uma visita após um quarto de século não foi suficiente para Manaus e Seleção Brasileira matarem a saudade mútua. Assim, no ano seguinte a reinauguração do Vivaldão, o time Canarinho retorna à Paris dos Trópicos e em dose dupla. No dia 22 de maio de 1996, contra a Croácia, e no dia 18 de dezembro daquele ano, contra a Bósnia, em partidas amistosas.

No duelo com os croatas, empate em 1 a 1 com direito a gol de um rubro-negro apelidado “Diabo Loiro da Gávea”. Sávio estava no auge da carreira e fez dupla de ataque com Luizão num time comandado pelo mesmo Jorge Lobo Zagallo de 26 anos antes.



Na partida do segundo semestre contra os bósnios, um Fenômeno esteve em Manaus com a Seleção. Foi a estreia de Ronaldo Nazário de Lima no estádio Vivaldo Lima e o atacante, que na época vestia a camisa do Barcelona, marcou o gol da vitória contra a equipe do Leste europeu.

Geração de craques da última visita

Depois de quatro partidas amistosas, finalmente a Seleção Brasileira principal joga um jogo oficial em Manaus. O time Canarinho desembarcou na capital amazonense pouco mais de um ano após conquistar o pentacampeonato mundial. Repleto de estrelas do porte de Ronaldo Fenômeno, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho no elenco, a equipe verde-amarela sofreu para vencer o Equador por 1 a 0, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo da Alemanha 2006.

Recém-ingressado no jornalismo, quem viu de perto o duelo entre brasileiros e equatorianos foi o jornalista Leanderson Lima. Na época, o hoje  editor do caderno CRAQUE, acabara de ser contratado para trabalhar no Jornal A CRÍTICA e uma de suas primeiras missões foi justamente cobrir o jogo da Seleção Brasileira.



“Me lembro que foi minha primeira vez tendo a oportunidade de estar do outro lado, como jornalista. Até então só havia acompanhado a Seleção Brasileira como torcedor na arquibancada. Estive no jogo de reinauguração contra a Colômbia em 1995, e contra a Croácia e  Bósnia, em 1996. Lembro que tinha pouco tempo de casa, e de cara fui escalado para cobrir a Seleção e aquilo foi insano. Quando vi estava entrevistando o Zagallo, Cafu, os caras que  antes só via pela televisão”, pontua Leanderson, lembrando que a expectativa da torcida amazonense foi grande, mas o tamanho do futebol apresentado naquela noite de 10 de setembro de 2003 foi pequeno. “A festa foi enorme. A expectativa era muito grande por conta dos craques brasileiros em campo. Mas no fim, a Seleção deixou muito desejar”, concluiu.

Estreia na Arena 

Hoje o Vivaldão já não existe mais. No seu lugar surgiu a magnífica Arena da Amazônia. Palco da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos Rio 2016 no mês passado, o novo estádio amazonense, assim como a cidade de Manaus, não vê a hora do encontro com o time verde-amarelo, quando o craque desta geração, Neymar, fará sua estreia no estádio. Então, se sinta em casa, Seleção Brasileira.

Fonte: A Crítica

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