Final da Copa tem torcida especial de descendentes de alemães e imigrantes argentinos no Estado

Foto: Arquivo CAM/POA/RS

12/07/2014

A receptividade e a positividade dos porto-alegrenses e gaúchos foram tamanhas que acabaram contagiando as seleções que passaram pela capital gaúcha durante a Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014™. Coincidência ou não, as duas seleções que decidem o Mundial no próximo domingo (13) venceram suas partidas no estádio Beira-Rio em Porto Alegre.

Ainda pela primeira fase, no dia 25 de junho, a Argentina superou a Nigéria por 3 a 2. Cinco dias depois, pelas oitavas-de-final, a Alemanha derrotou a Argélia por 2 a 1 na prorrogação. Pois a seleção que levantar a taça no domingo no Maracanã estará carregando um pouco desse pensamento positivo. Além disso, estará representando uma parcela da população gaúcha- sejam os descendentes de alemães, sejam os argentinos que moram no RS.

190 anos de Alemanha no RS

A torcida pela vitória da Alemanha no domingo unirá os gaúchos que tem antepassados alemães na sua árvore genealógica. Conforme estudos da Câmara Brasil-Alemanha, 25% da população gaúcha é de origem germânica.

Com características culturais fortes, tanto na arquitetura como nos costumes, Nova Petrópolis, município da Serra Gaúcha, é um exemplo dessa colonização. Para o secretário municipal de turismo, Daniel Camargo, “pelo menos 90% da população vai torcer para a Alemanha”. Por isso, quando a seleção entrar em campo, uma torcida gaúcha estará mobilizada. Na Rua Coberta, um telão de alta definição de 5 m X 3m transmitirá de forma gratuita o confronto contra a Argentina.

Entre os descendentes germânicos, estará Paulo Boelter e quatro amigos alemães que fizeram da casa dele uma espécie de “QG” durante a Copa 2014, pois viajam para assistir a jogos – conferiram as vitórias do país contra a Argélia em Porto Alegre e contra a França no Rio de Janeiro - mas retornaram ao município. Antes da partida, Boelter e os amigos participarão de um almoço especial promovido pelo Grupo de Danças Folclóricas Círculo da Amizade, da qual Paulo faz parte, para cerca de 300 pessoas.

Recebendo os visitantes há mais de duas semanas, ele afirma que eles têm gostado muito do Brasil. “Eles adoram o Brasil, amam o Brasil. Aqueles que vieram pela primeira vez estão encantados”, exalta Boelter.

Descendentes mantêm vivas as tradições

Com o objetivo principal do grupo de resgatar a herança cultural dos antepassados, além das aulas de danças, o Círculo da Amizade promove intercâmbio com alemães. Conforme Boelter, “pelo menos a cada dois meses tem alemão hospedado na minha casa”. Além disso, a cada dois ou três anos o grupo viaja para a Europa.ÂÂ  Nesses contatos, Paulo Bolter percebeu que a continuidade da cultura germânica existe muito mais no Brasil do que na própria Alemanha. “A manifestação cultural existe aqui com a descendência”, afirma Boelter.

E é para manter e mostrar a força da tradição, a preservação cultural por meio da dança, gastronomia, música, competições germânicas e o cultivo da diversidade que, desde 1973, todos os anos ocorre o Festival Internacional de Folclore. Na sua 42ª edição, esse ano o evento acontece de 25 de julho a 10 de agosto. “Eles encontram aqui um pedacinho da Alemanha do passado. Uma Alemanha que não existe mais na própria Alemanha”, completa Paulo Boelter.

Semelhanças unem gaúchos e argentinos

Não é só a ligação por terra que aproxima o gaúcho brasileiro do argentino, mas também hábitos e culturas semelhantes. Um mate amargo é uma delas, apesar de argentinos sustentarem que o deles possui um gosto ainda mais forte, a nossa cuia ser maior e ser feita de porongo, diferentemente da fruta da cuieira, mais usada pelos argentinos.

Pois foi essa aproximação que tornou a recepção aos hermanos um dos momentos mais marcantes da Copa 2014 no Rio Grande do Sul. Afinal, foram cerca de 100 mil, conforme dados da Brigada Militar, argentinos que cobriram Porto Alegre de azul e branco com um único objetivo: festejar.ÂÂ  Essa invasão portenha confirma os dados do Ministério do Turismo que destaca a Argentina como o maior emissor de turistas para o Brasil e para o Estado.

Quem já lembra com saudade desse dia é Eduardo Galeano, natural de Missiones, uma província no nordeste da Argentina. Proprietário de uma pousada nas Cataratas no Paraná, ele abriu um estabelecimento para receber argentinos em Porto Alegre durante a Copa 2014. “O momento vivido aqui na Copa foi espetacular. Quando foi o jogo contra a Nigéria me senti muito feliz porque Porto Alegre estava albiceleste”, celebra Galeano.

No Brasil desde 1990, ou seja, há quase 25 anos, Galeano ficou triste com a derrota brasileira para a Alemanha e acredita que os brasileiros não mereciam essa tristeza. “Não merecia o Brasil, o povo mais feliz do mundo. Foi uma tragédia. Eu estou triste!” Além disso, ele admite ficar dividido em confrontos entre os dois países. “Se ganha o Brasil, eu fico triste pela Argentina, se ganha a Argentina, eu fico triste pelo Brasil. Fico com o coração partido!”, admite Galeano.

Neste domingo, a ideia é promover um churrasco para amigos conterrâneos e ir para a Fan Fest torcer para a albiceleste. Confiante, ele acredita na vitória “Estamos vindo bem, a seleção vem num embalo muito bom!”, ressalta ele.

Quem também acredita na seleção de seu país é Rodrigo Mario Ruiz. Vindo da capital Buenos Aires, Ruiz mora há 37 anos em Porto Alegre, onde casou e constitui família. Para ele, não vai ser nada fácil superar os europeus. “Vai ser difícil. Os dois times vão entrar para ganhar com muita garra. Pode ser que ganhe a Argentina sim”, afirma. A preocupação é tanta que ele até brinca quando questionado a respeito de uma preparação especial para ver o jogo. “O telefone do serviço de ambulância!!!!”, exclama.

Vivendo há tanto tempo no Rio Grande do Sul, Ruiz identifica mais semelhanças entre o povo do sul do Brasil com o país dele do que com estados brasileiros. “O gaúcho tem mais semelhanças com o argentino do que com cariocas ou baianos”, afirma, destacando a obra O Gaúcho Martín Fierro (ou, simplesmente, Martín Fierro) como exemplo do que se estuda na escola, com as mesmas tradições que no RS.

Poema de José Hernández publicada pela primeira vez em 1872, a obra literária citada por Ruiz defende a causa do gaúcho, narrando o caráter independente, heroico e sacrificado dos habitantes dos pampas, e os situam como os verdadeiros representantes do caráter argentino.

Seja pela aproximação com argentinos ou pela descendência alemã, a final da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014™ se encerrará com grande torcida gaúcha.ÂÂ  A expectativa é saber quem será o vencedor.



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