Capital gaúcha comemora uma Copa “padrão Porto Alegre”

03/07/2014

Mais de 350 mil turistas passaram pela cidade que recebeu cinco jogos do Mundial. Iniciativas locais, como o Caminho do Gol, atraíram a atenção da FIFA

Assim como o projeto Copa do Mundo deixará um legado de infraestrutura, mobilidade urbana e turismo para Porto Alegre, a prefeitura da capital gaúcha acredita ter plantado uma semente de contrapartida à FIFA. Impressionada com o sucesso do Caminho do Gol – um corredor cultural de 3,5 quilômetros que ligou o centro histórico da Capital ao estádio Beira Rio – a entidade enviou uma equipe de TV para acompanhar a movimentação no dia do jogo entre Argentina e Nigéria. A idéia é analisar a ação e, quem sabe, implantar em futuras edições do torneio.

No relato do prefeito José Fortunati, na tarde desta quarta-feira, ele anunciou que pretende manter a iniciativa em dias de jogos importantes no Beira-Rio. E, assim que a duplicação da avenida Voluntários da Pátria estiver concluída, haverá um Caminho do Gol para a Arena do Grêmio.

Na coletiva de imprensa que ele chamou de “prestação de contas da Copa”, o mandatário anunciou que o balanço do impacto do evento será feito somente após 13 de julho, com calma e seriedade. Apesar disso, uma frase ostenta o contentamento do prefeito com o êxito do evento, do qual a cidade se despediu na segunda-feira, após Alemanha x Argélia. “Fizemos uma Copa Padrão Porto Alegre”.

Caminho do Gol em Porto Alegre: um corredor cultural de 3,5 quilômetros 
ligou o centro histórico ao Beira-Rio - Foto: Getty Images

Tecnologia e know how

A capital gaúcha ganhou em tecnologia, com a ampliação dos pontos de acesso livre à internet sem fio, com a capacitação dos servidores para lidar com megaeventos, a ótima imagem registrada pelos turistas, as ações de inclusão social, na acessibilidade, segurança e saúde, por exemplo. No dia da última partida da Copa na cidade, entrou em funcionamento o Hospital Restinga Extremo-Sul. E o município também entregou à cidade um revitalizado Hospital de Pronto Socorro.

Sucesso também na Fan Fest, por onde passaram, até esta terça-feira (01/07), 316 mil pessoas, e no Acampamento Farroupilha Extraordinário, que recebeu 100 mil visitantes. Aliás, a informação oficial, colhida junto aos Consulados, aponta a presença de 150 mil turistas estrangeiros, de 74 países, em Porto Alegre. Isso fora 200 mil turistas nacionais. “Mas sempre há um volume que escapa a esse controle, então temos certeza de que o número foi ainda maior. Felizmente, preparamos uma grande e eficiente estrutura para recebê-los e orientá-los. A Copa passou, mas nos deixa um excelente aprendizado”, disse Fortunati.

ILS 2 no aeroporto

Uma demanda de 17 anos foi, finalmente, entregue aos usuários do Aeroporto Internacional Salgado Filho. Ponto de incidência forte de nevoeiro, especialmente nos meses de maio a agosto, o local aguardava a instalação e entrada em operação do ILS 2, sistema de pouso de aeronaves com o auxílio de instrumentos. O equipamento entrou em operação pouco depois da abertura da Copa do Mundo. Embora ainda ocorram interrupções nos pousos e decolagens, não houve grandes transtornos a turistas e às delegações das seleções que jogaram em Porto Alegre.

Invasão holandesa para o jogo contra a Austrália: Porto Alegre recebeu 150 mil estrangeiros
Getty Images

Visibilidade e negócios

Embora a Copa ainda esteja em andamento em outras cidades brasileiras, o governo Rio Grande do Sul já comemora o resultado fora de campo. Após receber 350 mil turistas, uma nova janela se abre para dar visibilidade ao estado e alavancar negócios.

Conforme o governador Tarso Genro, a economia gaúcha movimentou, somente com os visitantes, mais de R$ 1 bilhão. Foram gastos, em média, R$ 3 mil por pessoa em hospedagem, transporte, alimentação e outros serviços. A ocupação hoteleira média foi de 80% num raio de 200 quilômetros de Porto Alegre. O comércio de serviços teve um acréscimo de 50% da demanda, e os de turismo, 40%.

Para o governador, foi fundamental a preparação iniciada em janeiro de 2011, com trabalhos transversais entre as secretarias que garantiram o preparo da estrutura do governo no evento. “Nossa capacidade de acolhimento passou pela segurança, qualificação dos nossos quadros e investimentos. O desempenho foi positivo. Tivemos um esquema de segurança que permitiu o acolhimento e a celebração do futebol". O esquema de segurança montado no Rio Grande do Sul foi apontado como exemplo para o país pelos ministros da Justiça e do Esporte.

Conjunto de imagens de câmeras de monitoramento ajuda equipes de segurança 
a ter mais precisão na prevenção - Foto: Claudio Medaglia/Portal da Copa

Investimento em segurança

Chegar a esse resultado exigiu trabalho e investimentos como a implantação do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC). A Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul recebeu investimentos de R$ 94,5 milhões em equipamentos e qualificação de pessoal. Foram R$ 79,7 milhões em aparatos provenientes da Secretaria Extraordinária dos Grandes Eventos (Sesge), do Governo Federal, como imageadores aerotransportados, Centros de Comando Móvel e armamentos não letais. Também foi estruturado o Centro Integrado de Comando e Controle Regional (CICC), no valor de R$ 1,5 milhão. Além disso, mais R$ 14,7 milhões foram aplicados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP), de maio a julho deste ano, na compra de micro-ônibus, camionetas, motos, coletes balísticos, escudos e pistolas.

Segundo o Estado, cerca de 3,5 mil policiais militares e 700 policiais civis trabalharam durante o evento. Destes, 2.115 vieram do interior do Estado. Após o fim da Copa, toda essa estrutura continuará ativa, interligando os órgãos de segurança 24 horas, durante todos os dias da semana.

Mobilidade

Dez obras inicialmente incluídas na matriz da Copa acabaram sendo retiradas em função das dificuldades para o cumprimento dos prazos, mas todas serão concluídas, afirmou Fortunati. Além delas, foram entregues à população os viadutos das avenidas Júlio de Castilhos, no Centro, e Pinheiro Borda, a duplicação da avenida Edvaldo Pereira Paiva e o corredor de ônibus da avenida Padre Cacique, bem como a abertura de ruas no entorno do estádio, com investimentos de quase R$ 120 milhões. “No total, a cidade captou financiamentos de R$ 888 milhões junto ao governo federal com juros baixos e longo prazo de pagamento, oferecido às cidades-sede do Mundial”, disse o prefeito.

Força estadual de saúde

Na área da saúde, a estrutura permanente da Força Estadual da Saúde é considerada um importante legado da Copa. Depois do torneio, as estruturas, equipes e procedimentos da Força poderão ser utilizados regularmente em caso de incidentes futuros com múltiplas vítimas em qualquer região do Estado.

Com um investimento de R$ 30 milhões, a Força conta com um Posto Médico Avançado e equipamentos para transporte aéreo de pacientes. Reúne 2 mil profissionais cadastrados e pode manter mobilizada uma equipe de 50 pessoas e outras 200 em sobreaviso. O grupo reúne profissionais de todas as regiões e permanecerá mobilizado para atuar em situações de desastres e emergências em qualquer ponto do Rio Grande do Sul.

O Posto Médico Avançado (PMA) é composto por cinco tendas infláveis, equipamento para montar 10 leitos de UTI e estrutura capaz de atender a 250 pacientes por hora, além de uma tenda inflável de descontaminação e atendimento para incidentes com substâncias químicas, bacteriológicas e nucleares explosivas.

Uma das obras estruturais mais importantes em relação à infraestrutura foi a de energia elétrica, com a conclusão da nova subestação Menino Deus da CEEE. Em conjunto com a linha de transmissão associada, ela beneficia cerca de 150 mil pessoas.

Gol de Andre Schuerrle, da Alemanha, na prorrogação das oitavas de final diante 
da Argélia. Rede balançou 22 vezes em cinco jogos na capital gaúcha - Getty Images

Espetáculo em campo

A Copa em Porto Alegre também foi pródiga em gols, lances geniais, jogos espetaculares e festa de torcidas. Em cinco partidas na capital gaúcha, as redes balançaram 22 vezes, uma média de 4,4 gols por confronto. Com capacidade total de 43.394, o Beira Rio recebeu 214.969 torcedores, com média de 42.993 espectadores. Ou seja, a cada jogo, apenas 401 assentos ficaram vagos. A ocupação quase total se justificava pela altíssima qualidade do futebol apresentado por craques como Benzema, da França, Robben, Van Persie e Sneijder, da Holanda, Thomas Mūller e Schweinsteiger, da Alemanha, e Messi e Di Maria, da Argentina. Isso sem falar nas surpreendentes Argélia, Nigéria e Austrália, que encantaram o público com performances impressionantes.

Com tanta qualidade, a cidade, que dois dias após o último jogo ainda fala diversos idiomas, foi literalmente invadida por turistas alemães, holandeses e argentinos nos dias que antecederam as partidas dessas seleções. Mais do que os cerca de 83 mil ingressos vendidos para estrangeiros, o Caminho do Gol e os bairros boêmios foram tomados por visitantes, que protagonizaram momentos de muita animação e integração com a comunidade local.

Foram 16 dias de muita emoção. Porto Alegre viveu a Copa como talvez nunca tenha vivido outro evento. E guardará na lembrança cada instante dessa experiência com tamanha riqueza cultural. Foi uma Copa para a história.



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