SUSPENSÃO DE BLATTER MARCA FIM DE UMA ERA NA FIFA

Blatter nega ter participado de qualquer esquema de corrupção à frente da Fifa (AFP)

22/12/2015

Os 17 anos de Sepp Blatter à frente da Fifa parecem ter terminado de forma inglória: nesta segunda-feira ele foi banido por oito anos de qualquer atividade administrativa associada a esse esporte, o que marca o fim de uma era na administração da Federação Internacional de Futebol e na carreira do dirigente suíço.

Durante meses, o homem mais poderoso do futebol mundial teve a reputação abalada por uma série de acusações de corrupção.

Blatter nega participação em qualquer irregularidade e pretende apelar contra seu banimento, que foi decidido pelo comitê de ética da Fifa.

"Vou lutar até o fim", disse Blatter nesta segunda-feira em entrevista coletiva. "Após 40 anos (trabalhando no futebol), não pode ser assim. Não é possível."

Para muitos dirigentes e analistas de futebol, porém, a suspensão pode selar o fim da carreira de Blatter, 79, no futebol - esporte em cuja administração ele passou mais da metade de sua vida.

Ele já estava suspenso do cargo por 90 dias em função das investigações. Mas nas atuais circunstâncias parece impossível que permaneça na presidência da organização.

Blatter foi banido por acusações de ter assinado um contrato "desfavorável" para a Fifa e fazer um pagamento irregular de US$ 2 milhões em 2011 ao presidente da União das Federações Europeias de Futebol (Uefa), o francês Michel Platini, que também foi suspenso por oito anos das atividades ligadas ao futebol.

Para o juiz alemão Hans-Joachim Eckert, ambos não conseguiram demonstrar que o pagamento foi legítimo.

Platini, por sua vez, defendeu-se dizendo que a decisão teria como objetivo "sujar" seu nome e anunciou que também pretende apelar.

Outras investigações

Essa investigação do comitê de ética foi aberta depois que o procurador-geral da Suíça começou a apurar esses pagamentos irregulares.

Os problemas de Blatter, porém, não param por aí.

O presidente da Fifa também é investigado pelo comitê de ética por acusações ligadas a um acordo sobre direitos televisivos selado em 2005 com Jack Warner, ex-presidente da Concacaf, órgão máximo do futebol na América do Norte, América Central e Caribe.

Blatter na realidade anunciou sua demissão em junho, depois que autoridades da Fifa foram acusadas de corrupção pelo Departamento de Justiça dos EUA. Mas, na ocasião, ele disse que permaneceria no cargo até que fossem realizadas novas eleições.

Platini, da Uefa, também foi banido por oito anos de atividades ligadas ao futebol (AFP)

A demissão causou surpresa. Até porque dias antes Blatter havia sido reeleito para um quinto mandato sem precedentes na história da Fifa, com o discurso de que seria o homem certo para implementar as reformas necessárias na organização.

Aparentemente, porém, a dramática prisão de funcionários da Fifa em seus quartos de hotel em Zurique, quando eles se reuniam para um Congresso, no dia 27 de maio, fez com que a reeleição de Blatter e seu novo mandato fossem envoltos em um mar de incertezas.

História pessoal

Blatter nasceu em uma família humilde na cidade de Visp, nos Alpes suíços.

Sempre gostou de assumir papéis de liderança. Diz a lenda que era o rei do parquinho infantil em sua escola primária, na década de 1940, além de ser o único menino da região que sabia jogar futebol como um profissional.

Depois da escola, Blatter teve uma carreira pouco comum para um suíço nos anos 1960. Ele serviu o Exército, chegando ao posto de coronel. E nas Forças Armadas fez contatos que lhe seriam úteis mais tarde.

Blatter também trabalhou na indústria de relógios, e logo entrou no ramo de gerenciamento esportivo, atuando na Federação Suíça de Hóquei no Gelo antes de entrar para Fifa, como diretor técnico, em 1975.

Quando ele foi eleito pela primeira vez presidente da Fifa, em 1998, os suíços celebraram, como lembra Roland Buechel, membro do Parlamento do país e ativista pela transparência no futebol.

"Ficamos orgulhosos de ter um suíço à frente de uma organização internacional tão importante", diz.

Em Visp, a velha escola de Blatter foi rebatizada em sua homenagem. Seu retrato foi pendurado no hall de entrada da instituição e festivais esportivos passaram a levar o nome do presidente da Fifa.


Até hoje, ele costuma ter uma recepção calorosa quando visita a cidade.

"Ele é muito simples, muito acessível", diz Hans-Peter Berchtold, editor de esportes do jornal local Walliserbote.

Acusações

Berchtold diz que as pessoas da cidade estão cientes dos escândalos de corrupção envolvendo a Fifa.

“Ninguém é cego”, diz. “Todo mundo sabe que há problemas na Fifa. Mas acho que eles (os moradores que conhecem o presidente da entidade há muitos anos) não acham que Blatter deve ser responsabilizado por tudo.”

Berchtold defende que há muitos aspectos positivos da gestão de Blatter na Fifa que devem ser considerados em uma análise crítica, como a promoção do futebol em países em desenvolvimento, a primeira Copa do Mundo na África e, mais recentemente, o início do processo de reforma da entidade.

É nesse ponto, porém, que alguns críticos de Blatter discordam.

“Afinal, ele teve 17 anos para melhorar a governança da Fifa”, disse em entrevista à BBC em meados do ano Eric Martin, chefe do braço suíço da ONG Transparência Internacional (TI).

Em 2011, um painel independente propôs um pacote de reformas para a Fifa. A entidade, porém, escolheu ignorar recomendações que ampliariam a transparência sobre seus negócios, segundo Martin.

Além disso, enquanto alguns velhos amigos descrevem Blatter como alguém sensato e aberto ao diálogo, outras pessoas que trabalharam com ele o acusam de hostilizar quem lhe faz oposição.

Muitos criticam o fato de que, durante a corrida pela presidência da Fifa, Blatter rejeitou a possibilidade de um debate na TV com outros candidatos.

E, certa vez, quando questionado sobre qual sua resposta para as críticas a sua gestão, ele respondeu: Podia perdoar, "mas não esquecer”.

Fonte: BBC Brasil


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